
O grande objectivo a que me propus foi a travessia de 9 ou 10 etapas em outros tantos dias, juntando-me para isso aos amigalhaços Nés, Ricardo e César, que iriam faze-la na íntegra em 15 dias.
Seríamos apoiados por uma Auto caravana, com condutor, que nos permitia alguma flexibilidade no cumprimento das etapas, podendo alongá-las ou encurtando-as conforme as incidências do dia, tornado também a logística bem mais simplificada, nomeadamente não termos que carregar alforges. Tudo bem preparado, com pessoal habituado a estas grandes aventuras era o mote para tudo correr bem. Mas, quem anda nestas grandes rotas, sabe que nem tudo corre conforme o previsto.
E os percalços começaram ainda antes de eu ter chegado. A bicicleta do César deu um sem fim de problemas, originando cerca de 10 furos em dois dias, justificado pelo sobre aquecimento dos aros (travões V-brake), apesar de ser uma causa ainda um tanto ou quanto duvidosa, pelo menos para alguns, dos quais me incluo. Correntes partidas, pedaleiro gripado, tudo lhe aconteceu, deixando-o ao desespero.
O Ricardo lá apanhou uma daquelas constipações, talvez originada pela chuvada caída em dois dias.
O Nés lá se foi safando, apesar da suspensão da frente não estar muito famosa, e o condutor deu de frosques, por motivos pessoais deixando uma logística que se teria que resolver. O Ricardo decidiu fazer as manhãs de bicicleta e as tardes de condutor, deixando apenas um meio-dia para dividir por entre os três.
No meu primeiro dia, arrancámos três de Bagá ficando o César a fazer de condutor, para uma manhã feita a subir durante cerca de 23kms em estradão com pedra, levando-nos dos 800m a uma altitude de 1925m, descendo depois até Tuixen através de estradão, single e estrada, local onde almoçámos, na auto caravana, uma bela saladonga, para continuarmos até Argestues, que fazia parte da etapa seguinte, de forma a tentar recuperar o atraso de 1 dia motivado pelos problemas mecânicos mencionados.

No dia seguinte a auto caravana levou-nos ao local que atingimos no dia anterior e partimos daí em direcção a Sort, local definido para almoço. Nesse dia o Ricardo perdeu-se e fugiu um pouco do trilho, tendo-se dirigido à estrada o que facilita o encontro com um local, de forma a dar o melhor itinerário. E chegou primeiro que nós ao ponto de encontro definido com o César, que entretanto nos enviou um SMS da sua localização.
Antes dessa aldeia, dirigimo-nos a um bar em Arestui para beber algo e acabámos por trocar algumas impressões com o dono, um homem de cerca de 40 anos, apaixonado por desportos que praticava (BTT, motos, escalada, esqui), mecânico de profissão e que geria ali um albergue, que conhecia bem a zona e nos deu a entender o dia seguinte, não sem antes nos indicar a curva ideal para pernoitarmos, dado que o caminho para essas aldeias é por uma estrada onde apenas cabe um automóvel e não tem saída. Para dar uma ideia do isolamento, no Inverno costumam de habitar 7 pessoas em Arestui, sendo o “Tuxe?”(nome do granda maluco) um deles.

O dia seguinte era o dia de maior ascensão, a 2250m e que desta vez, na companhia do César, já com a bike reposta e com o Ricardo a descansar, lá climbámos, inventei agora mm essa palavra anglo-lusitana, cheios de vontade até ao topo dos topos. E tudo correspondeu ao anteriormente indicado. É sem dúvida um local especial, onde não existem palavras nem fotos que consigam mostrar o sentimento de estar ali a observar a natureza.
Curiosamente foi o local onde nos cruzámos com mais bbtistas, desde um solitário que subia aos topos de automóvel, dormia numa tenda e subia e descia a montanha e de seguida ia para outro topo, até um grupo que fazia uma das várias rotas dos Pirinéus. Encontrámos também um maluco a fazer parapente e alguns jeeps e automóveis normais, apesar do mau piso, a curtirem o local.


No dia seguinte decidimos abortar a etapa, fazendo-a de auto caravana até El Pont de Suert, onde o roteiro que nos guiou indicava uma “tienda de bicis”, local ideal para arranjar a minha bicicleta e comprar uns sapatos que entretanto se tinha rasgado a sola e também, aguardar a recuperação do Nés. Apesar da loja ser bastante limitada e não dispondo daquele dia de mecânico, lá me safei noutra ao lado de eventos desportivos, acabada de abrir, e que tinha raios de diversas medidas.
Nesta localidade deparámos com alguns ciclistas com os mais variados problemas mecânicos, que demonstra bem a rispidez deste local.
Um dia depois do repouso e já com o Nés numa mega recuperação e cheio de disposição para continuar a volta, lá fizemos a ligação de El Pont de Suert-Escalona, tendo o almoço sido marcado para Seira.
Esta foi mais uma etapa de cerca de 90 kms que em alta montanha, grande parte em BTT, é bastante duro, como ficou provado no dia seguinte.
Esse dia fica marcado pela recaída e fadiga muscular do Nés que não conseguiu recuperar os seus índices físicos normais. Contudo, não foi por falta de vontade, pois ainda assim fez os 45kms que restavam até Sarvisé, que era o fim da 11ª etapa. E após alguma meditação e criação de diversos cenários, chegámos à conclusão que o regresso seria a única solução para não arriscar em demasia e não chegar a uma situação extrema, com muita pena de todos.
Para mim foi uma viagem com sabor agridoce, causado por todos os imprevistos e de não ter cumprido o objectivo, mas o concretizar de uma viagem de sonho, onde o prazer do BTT foi total, num local espectacular e acompanhado por pessoas extraordinárias, servindo também para mais uma lição de vida em que por muito planeamento que se faça, existem sempre imprevistos impossíveis de contornar, mas… Tudo está bem quando acaba b


Primeiras fotos em
http://picasaweb.google.pt/josealexss/Pirineus?feat=directlink